A CULTURA DO MIRTILO


por Alverides Machado dos Santos*


O mirtilo é um dos cultivos mais recentes a ser explorado economicamente pelo homem, pois até o início do século XX sua exploração era extrativa das matas da América do Norte. O melhoramento genético da espécie é recente e as principais cultivares são de origem de material nativo, pertencente à família das Ericaceae, gênero Vaccinium, com uma diversidade grande de espécies. O número básico de cromossomos é x = 12. Dentre as espécies as mais importantes são: Diploides (2n=24) V. myrtilloides Michaux, V. elliotii Chapman e V.mirtillus Linnaeus; Tetraploides (2n=48) V. angustifolium Aiton, V. corimbosum Linnaeus e V.membranaceum Douglas; e Hexaploideas (2n=72) V. ashey Reade e V. constablaei Gray. Sua origem é da América do Norte, sob as mais variadas condições de clima, desde o Leste do Canadá até o Sul dos Estados Unidos da América.

As condições climáticas de cultivo vão desde regiões com 300 horas de frio abaixo de 7,2ºC até regiões com mais de 1100 horas de frio. Normalmente as espécies arbustivas baixas são mais exigentes em frio que as espécies com plantas altas. Estas também suportam melhor as condições de estresse d’água. Para maturação do fruto requer temperatura elevada e alta luminosidade. No Estado do Rio Grande do Sul, município de Pelotas a floração se dá no final de agosto e início de setembro, e a maturação desde a segunda quinzena de dezembro a janeiro. A flutuação térmica entre o dia e a noite favorece o sabor e o aroma do fruto.

O mirtilo desenvolve-se bem em solos ácidos com pH entre 4 e 5, com textura arenosa e areno-argilosa. Suporta bem solos úmidos desde que bem drenados. Um mau manejo de água pode provocar um baixo crescimento, reduzir a produção de frutos, excesso de ramos secos e até a morte do arbusto. O elemento químico que mais influência a produção de mirtilo é o nitrogênio, devendo ser aplicado na época da brotação (setembro). Em condições de solos muito fracos é aconselhada a suplementação de fósforo e potássio. O mirtilo não suporta período longo de estiagem, necessitando de irrigação e uso de mulching com serragem ou palha seca, na espessura de 10 a 15 cm, para evitar a perda de água por evaporação.

A multiplicação é através do enraizamento de estacas semilenhosas, tratadas com ácido Indol-Butírico (IBA), na concentração de 2000 a 4000 ppm. As estacas devem ter um comprimento de 10 a 15 cm e o diâmetro mínimo de 5 mm. O substrato usado é areia média, e a profundidade de plantio das estacas é de 5 cm, com espaçamento de 5 x 5 cm. O ambiente deve ficar protegido de ventos, e sob um sistema de irrigação de baixa vazão e intermitente, de modo a manter o ambiente próximo a 100% de umidade relativa, para evitar o ressecamento das estacas. Deve-se ter cuidado de retirar o material que secou para evitar a contaminação por fungos. Após 120 dias faz-se a repicagem do material enraizado para sacos plásticos com substrato composto de 40% de solo, 40% de estrume bem curtido e 20% de vermiculita ou casca de arroz carbonizado. O solo e o estrume devem sofrer um processo de desinfestação para evitar possível contaminação do sistema radicular.

O transplante das mudas para o local definitivo, deve ser feito no período de repouso, julho e agosto, e o nível da muda no solo ficar 5 cm, abaixo do nível que estava no viveiro. O espaçamento usado é de 1,5 m entre plantas, na linha, e três metros entre linhas. Pelo fato de ainda não se conhecer muito bem o processo de polinização entre as diferentes cultivares é aconselhável colocar mais de duas no mesmo talhão de cultivo. Para evitar a concorrência das ervas daninhas em água e fertilizantes recomenda-se manter o solo livre de invasoras na linha de plantas e entre linhas um relvado.

A frutificação se dá em ramos de um ano de idade e a poda é recomendada a partir do terceiro ano de plantio; deixando de cinco a sete hastes, sendo uma ou duas para renovação e as demais para produção, desta forma se mantém a produção estável em quantidade e qualidade de fruto. Os ramos velhos e fracos desde a base, devem ser eliminados deixando os mais vigorosos, que produzem melhores frutos. No caso de plantas muito vigorosas, faz-se o desponte deixando de oito a dez gemas por ramo. As cultivares de porte baixo requerem maiores cuidados na eliminação de ramos baixos e centrais, enquanto nos arbustos altos deve-se eliminar as brotações centrais procurando conduzir a planta em forma de copa aberta. Não se recomenda poda muito severa, devido a reduzir excessivamente a produção, exceto quando se deseja frutos grandes e produção precoce. A colheita deve ser feita quando o fruto atingir a maturação plena indicada pela coloração azul escura de epiderme e para isto, são utilizadas caixas especiais ou diretamente na embalagem de comercialização . A fruta do mirtilo não é tão sensível como as demais pequenas frutas (morango, amora preta, framboesa) conservando-se, sob condições de prateleira, de sete a dez dias e em condições de câmara fria de trinta a quarenta dias. A colheita se realiza com intervalos de quatro a sete dias dependendo das condições climáticas e do estágio de maturação do fruto.


* Alverides Machado dos Santos é pesquisador aposentado da Embrapa Clima Temperado. Especialista em Pequenas frutas e introdutor do cultivo de Mirtilos no Brasil.